Não há nada de novo sobre o mal, mas há algo de novo sobre o tipo de mal que se apresenta na contemporaneidade. O mal que caracterizava formas sociais no passado concentrava-se, em geral, nas mãos dos Estados, os quais detinham o monopólio dos modos de coerção e usavam os meios à disposição para perseguir fins frequentemente bárbaros e brutais. Como se sabe, Nietzsche definiu o Estado como “o mais frio de todos os monstros”.1

A novidade sobre o tipo de mal atual diz respeito ao fato de ele ter-se tornado mais difuso e, ao mesmo tempo, menos visível. O mal se esconde hoje, segundo Bauman, nas “costuras da tela tecidas diariamente pelo modo líquido-moderno de interação e comércio humanos, e se oculta no próprio tecido da coabitação humana e no curso de sua rotina e reprodução cotidianas”.2

A violência doméstica parece ser o epítome desse tipo de mal.3 O termo designa, no Brasil, a agressão de caráter físico ou psicológico infligida à mulher por parte do marido ou parceiro sexual. Seria o que em outros países se denomina de “violência conjugal” ou “violência entre parceiros íntimos”. Talvez essa seja a razão pela qual estejamos acostumados a pensar a “mulher espancada” como a vítima por excelência desse tipo de crime. Com efeito, a violência contra mulheres e meninas é a forma mais generalizada de violação de direitos humanos no mundo de hoje. Suas formas são grosseiras, embora também possam ser sutis, mas seu impacto no desenvolvimento pessoal é interminável. Essa violência encontra-se hoje tão profundamente incorporada em quase todas as culturas e em todas as classes que o fenômeno, de tão difuso, tornou-se quase invisível.4 As histórias são dolorosamente parecidas e o desfecho trágico, que costumava ser raro, ganhou recentemente um substantivo: feminicídio.

Há, no entanto, muitas outras vítimas que, na maioria das vezes, suportam em silêncio, sem poder agir: os filhos do casal, crianças que sofrem os males psicológicos, eventualmente também os físicos.5 Elas irão carregar na alma as marcas dessa dor. Umas imitarão o pai, outras casarão com maridos também violentos, outras enfim conseguirão alcançar, ao menos externamente, a paz que nunca tiveram. No entanto, hoje se sabe, são marcas que não mais se apagarão.

Cansados de estatísticas que embora signifiquem muito, dizem pouco, vale reproduzir aqui uma, dentre milhões de outras histórias, exatamente como relatada pelo filho de um pai agressor, agora já um senhor de meia idade:

Meu pai era, em muitos aspectos, um homem de disciplina, organização e carisma — um sargento-mor, não menos. Um dos últimos homens a ser evacuado de Dunquerque, (…) ele lutou no Monte Casino. Um soldado me disse uma vez: ‘Quando seu pai marcha na parada, os pássaros nas árvores param de cantar’. Na vida civil, ele era um homem irritado, infeliz e frustrado que não conseguia controlar nem suas emoções nem suas mãos. Quando criança, eu testemunhei sua repetida violência contra minha mãe, e o terror e a miséria que ele causou foram tais que, se eu sentisse que poderia ter conseguido, eu o teria matado. Se minha mãe tivesse tentado, eu a teria ajudado.

Para aqueles que tentam compreender esses sentimentos em uma criança, imaginem viver em um ambiente de imprevisibilidade emocional, perigo e humilhação, semana após semana, ano após ano, a partir dos sete anos de idade. Meu instinto infantil era proteger minha mãe, mas o homem que a machucava era meu pai, a quem eu respeitava, admirava e temia. De segunda-feira de manhã até sexta-feira, hora do chá, ele trabalhava como operário semiqualificado, e era diligente e sóbrio.

Muitas vezes engraçado e encantador, ele estava sempre cheio de histórias pessoais de guerra e aventura que me emocionavam. Mas, na noite de sexta-feira, depois que os pubs fechavam, esperávamos com receio que ele voltasse. Eu estaria na cama, mas não dormindo. Eu nunca consegui dormir até ele dormir; enquanto ele estava acordado, estávamos todos em risco. Eu ouvia sua voz cantando quando ele voltava para casa. Certas músicas eram reconfortantes. Mas as músicas do exército não eram um bom sinal. E o pior era o silêncio. Quando eu só conseguia ouvir seus passos, era o sinal para ficar super alerta.

Nossa casa era pequena e, quando você cresce com violência doméstica em um espaço confinado, aprende a medir com precisão a temperatura das situações. Eu sabia exatamente quando a gritaria havia terminado e uma mão estava prestes a ser levantada — eu também sabia exatamente quando inserir um pequeno corpo entre o punho e o rosto dela, uma habilidade que nenhuma criança deveria ter que aprender. Curiosamente, nunca senti medo por mim mesmo e ele nunca me bateu, uma estranha imposição moral que não permitiria que ele atacasse uma criança.

Ainda assim, a situação era quase intolerável: eu testemunhei coisas terríveis, mas não havia nenhum lugar para pedir ajuda. Pior, houve aqueles que toleravam o abuso. Ouvi a polícia e os homens da ambulância, em pé em nossa casa, dizerem: “Ela deve tê-lo provocado”, ou “Srta. Stewart, são necessários dois para brigar”. Eles não tinham ideia. A verdade é que minha mãe nada fez para merecer a violência que sofreu. Ela não provocou meu pai, e mesmo se tivesse provocado, a violência é uma maneira inaceitável de lidar com conflitos. (…)

A violência doméstica ainda é vista como um “problema da mulher”. Por razões óbvias, as mulheres administram as instituições de caridade e cuidam dos abrigos. Os grupos parlamentares sobre violência doméstica e abuso compreendem principalmente mulheres deputadas. Quando as vítimas falam, elas tendem a ser mulheres que falam para outras mulheres. No entanto, a violência é uma escolha que um homem faz e só ele é responsável por isso. Porque a violência doméstica é um problema do homem. Nós somos aqueles que estão cometendo as ofensas, realizando os atos cruéis, controlando e negando tudo. São os homens.6

Esse insight começa finalmente a ser ressaltado: a violência doméstica é um fenômeno masculino, cuja solução passa pela compreensão, pelo homem, do que é a sua masculinidade.

Tal mudança de paradigma, hoje proposta por várias partes, parece imprescindível, e inelutável. Em palestra ao TED, Jackson Katz — autor dos livros The Macho Paradox e Man Enough?7 — afirma, com conhecimento de causa, não querer “brigar” com os homens porque eles simplesmente desligam — mas gostaria de fazê-los pensar e falar sobre como tratam as mulheres em sociedade.8

“Os homens simplesmente desligam” é uma constatação para lá de verdadeira.9 Segundo Katz, considerar a violência doméstica uma questão feminina dá aos homens uma desculpa para não prestar atenção. Em suas palavras:

Muitos homens escutam o termo ‘questões femininas’ e nós tendemos a não prestar atenção, e pensamos: ‘Ei, eu sou homem. Isso é para garotas’, ou ‘Isso é para mulheres’. E muitos homens, literalmente, não vão além da primeira frase, como resultado. É quase como se um chip em nosso cérebro fosse ativado e os caminhos neurais mudassem a nossa atenção para uma direção diferente, quando escutamos o termo ‘questões femininas’. Isso também é verdade, a propósito, para a palavra ‘gênero’, porque muitas pessoas escutam a palavra ‘gênero’ e acham que isso significa ‘mulheres’. Então eles pensam que questões de gênero são sinônimos de questões femininas.10

Segundo Katz, “precisamos que os homens falem” e “precisamos que os homens digam para outros homens, quando eles cruzam uma linha, quando dizem ou fazem algo inaceitável, que ‘isso não está certo’. Katz acredita que acabar com o “silêncio coletivo” dos homens é a única solução a curto prazo para acabar com a violência doméstica. Em seu livro, The Macho Paradox, Katz ensina a “abordagem do espectador”, pela qual as comunidades são encorajadas a se apropriarem do problema do abuso no relacionamento e os homens são encorajados a desafiar comentários sexistas e comportamentos inaceitáveis.

‘Há todos esses homens influentes na política, educação, negócios, religiões, esportes e há homens em papéis de mentores — pais, tios e técnicos (coachs). Mas, por algum motivo, eles ficam em silêncio’, diz Katz. Pensar consigo mesmo: ‘Eu não bato em mulheres, então não é problema meu’ não é suficiente.

Um grande obstáculo é o medo do julgamento dos homens por outros homens. Segundo Katz, os homens se preocupam em não ser vistos como suaves ou fracos ou não sendo homens de verdade. Outro obstáculo é a falta de modelos: “Não houve muitos homens que se manifestaram em um espaço público”. E o fato de estarem errados “irrita muitos homens, pois eles acham que terão que realinhar o que é certo e errado”.

Jackson Katz começou a estudar a violência doméstica aos 19 anos, ainda estudante de jornalismo, ao cobrir uma campanha para uma melhor iluminação no campus, uma intervenção básica de segurança que favoreceria a todos. E afirma que embora tenha ficado muito impressionado com a campanha das mulheres, pensou: ‘Por que só as mulheres estão aqui?’ As mulheres estavam fazendo todo o trabalho, criando o movimento de mulheres agredidas, o movimento pela crise de estupro que então ocorria no campus. Parecia óbvio, diz ele, que a peça que faltava era o ativismo dos homens, a responsabilidade dos homens. E finaliza:

Quando as pessoas perguntam por que eu faço isso, elas sempre assumem que eu devo ter algum tipo de história pessoal. Minha resposta é que se uma história pessoal bastasse para um homem falar sobre abuso doméstico, teríamos milhões de vozes masculinas — pais, filhos, amigos e parceiros de mulheres que sofreram abuso. Mas isso não aconteceu. Então, a grande questão é: por que mais homens não aparecem? Quais são as razões de isso não ter ainda se tornado um movimento de massa entre os homens?

Octavio Salazar, professor de Direito Constitucional na Universidade de Córdoba, na Espanha, e autor do livro El Hombre que No Deberíamos Ser, afirma que o problema é o modelo hegemônico de masculinidade que tradicionalmente defendeu valores como a agressividade e a invulnerabilidade, e que se posicionou como detentor do poder e da palavra acima das mulheres.11 Dá alguns exemplos destas convenções que impregnam a sociedade e atrapalham o caminho para torná-la mais justa: i) Meninos não choram; ii) Precisam brigar; iii) Futebol e roupa azul: coisas de meninos; iv) ‘Bicha’, ‘mariquinha’, ‘fresco’: homens de primeira e de segunda; v) ‘Como não vai querer sexo, se você é homem!’; vi) O homem responsável é “um homem frouxo”; viii) os homens são assim….

‘Os homens são assim…’, ‘está no topo da lista das respostas mais conhecidas a qualquer tipo de denúncia machista e debate feminista, também quando se fala em masculinidade tóxica. Segundo Salazar:

Os homens tendem a ver isso como uma espécie de ataque individual, não coletivo. O contexto em que cada um tem diferentes níveis de responsabilidade não é identificado e há muita resistência alimentada justamente pelas redes sociais com discursos estereotipados que nelas circulam e criam um perigoso caldo de cultura de masculinidades muito tóxicas.

Há ainda outra grande pergunta que raramente é feita e menos ainda respondida. A questão é por que nunca falamos sobre os culpados?

Para Julia Penelope, a forma como usamos a linguagem conspira para manter a atenção longe dos homens. De fato, as mulheres aprenderam desde o nascimento a aceitar e até mesmo abraçar sua própria falta de lugar na sociedade por meio de construções linguísticas. Nós vemos isso ecoando repetidamente na publicidade, na TV, nos filmes e até na política. A versão masculina branca da história é aquela que é ensinada como a única verdadeira e crível. Julia Penelope explicou como mudanças gramaticais criavam uma “culpabilização da vítima”, ao usar-se a voz passiva — assim, “João espancou Maria” rapidamente se torna “Maria é uma mulher espancada”, tirando o perpetrador completamente da equação, ao apagar a voz ativa. Eis a explicação dada por Jackson Katz da teoria de Penelope:

Começa com uma frase básica: ‘João espancou Maria’. Essa é uma boa frase. João é o sujeito. Espancou é o verbo. Maria é o objeto. Boa frase. Agora, vamos para a próxima frase, que diz a mesma coisa, mas na voz passiva. ‘Maria foi espancada por João.’ Agora, muita coisa aconteceu nesta frase. Mudamos de ‘João espancou Maria’ para ‘Maria foi espancada por João.’ Mudamos nosso foco, nesta última frase, de João para Maria. E dá para ver que João está quase no fim da frase. Bem, quase caindo do mapa da nossa mente. Na terceira frase, João caiu, e ficamos com ‘Maria foi espancada’, Agora é somente Maria. Não estamos nem pensando em João. O foco está totalmente em Maria. Ao longo da última geração, o termo que usamos, sinônimo de ‘espancada’, é ‘agredida’. Então ficamos com ‘Maria foi agredida.’ E a frase final desta sequência, a partir das anteriores, é ‘Maria é uma mulher agredida.’ Agora, a verdadeira identidade de Maria — ‘Maria é uma mulher agredida’ — é aquilo que João causou a ela no primeiro exemplo. Mas mostramos que João há muito não faz parte da conversa. Agora, nós que trabalhamos no campo da violência doméstica e sexual sabemos que culpar a vítima é algo difundido nesse campo, o que significa culpar a pessoa que sofreu o abuso, em vez de culpar a pessoa de cometeu o abuso. E dizemos coisas do tipo: ‘Por que essas mulheres saem com esses homens? Por que sentem atração por esses homens? Por que sempre voltam para eles?12 O que ela estava usando naquela festa? Que idiotice a dela. Por que ela estava bebendo com aquele grupo de homens naquele quarto de hotel?’ Isto é culpar a vítima e há inúmeras razões para isto, mas uma delas é que toda a nossa estrutura cognitiva é programada para culpar as vítimas. É inconsciente. Toda a nossa estrutura cognitiva é programada para fazer perguntas sobre as mulheres e suas escolhas e o que elas estão fazendo, pensando e vestindo.13

 

* * *
 

“É sempre por abuso que se imagina que uma mulher é sua. Os homens inventaram o casamento para poder imaginá-lo”. Esta frase de Lacan, citada por Jacques Alain-Miller, sintetiza o sentimento de propriedade que culmina nos tremendos atritos conjugais e no enorme ressentimento que advém do término da relação. As mulheres são, portanto, apenas as vítimas mais visíveis de um fenômeno ao qual estamos cada vez mais acostumados e que não obstante tudo o que tem sido feito para diminuí-lo, não parece arrefecer.14

No entanto, essa brutalidade não é inevitável. Uma vez reconhecida pelo que é —uma construção de poder e um meio de manter o status quo — pode e precisa ser desmantelada. De fato, como pensar em diminuir a violência em nossas cidades se sequer conseguimos minorá-la em nossas casas?15

Como tive oportunidade de comentar em editorial da Civilistica.com, a chave para a solução do problema da violência doméstica exige, necessariamente, o engajamento (espontâneo, não artificial)16 dos homens. Mais especificamente, parece oportuno um passo anterior: torna-se imprescindível repensar que noção de masculinidade se pretende afirmar na sociedade atual (e, sobretudo, como ensiná-la às crianças e aos jovens que formarão a sociedade do futuro).

Recentemente, um comercial veiculado pela marca Gillette, cujos produtos se voltam essencialmente ao público masculino, apoiou o movimento internacional #MeToo, em defesa das mulheres vítimas de violência, e denunciou uma série de comportamentos caracterizadores da “masculinidade tóxica”. Em vez de afirmar “o melhor que um homem pode conseguir” — slogan de 30 anos da marca —, uma voz pergunta: “Isso é o melhor que um homem pode conseguir?”.17

A virulência das críticas dirigidas ao comercial, que acusam, em larga medida, o anúncio de “ameaçar” a masculinidade e chegam a propor o boicote aos produtos, reproduz, mais uma vez, as principais causas do problema: poder e controle.

 

Maria Celina Bodin de Moraes

 

Friedrich NIETZSCHE, Assim Falou Zaratustra: “Estado é o nome do mais frio de todos os monstros gelados. Aliás, ele mente de uma maneira fria e a mentira que sai da sua boca é esta: ‘Eu o Estado sou o Povo’.”

Zygmunt BAUMAN e Leonidas DONSKIS. Mal líquido. Vivendo num mundo sem alternativas. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.

Na sociedade romana primitiva, a mulher era considerada propriedade do marido e, portanto, estava sujeita ao seu controle. De acordo com a antiga lei romana, um homem podia bater, divorciar-se ou assassinar sua esposa por ofensas cometidas por ela, que manchavam sua honra ou ameaçavam seus direitos de propriedade. O endosso da Igreja Católica às “As Regras do Casamento” do séc. XV exortava o marido a se apresentar como juiz de sua esposa, podendo ele espancá-la com um pedaço de pau quando cometesse uma ofensa. Os puritanos foram os primeiros a banir a violência familiar. As leis proibitivas foram moderadamente aplicadas até que o movimento feminista da década de 1960 trouxe os problemas do abuso doméstico para a atenção pública. Nos anos 80, a maioria dos Estados adotou legislação proibindo a violência doméstica que deixou de ser considerado assunto privado.

No Brasil, há ainda o sério agravante da falta de informações. Assim, Wania PASINATO. A violência contra as mulheres e a pouca produção de informações. Jornal da USP, 24 de Jan. 2018, disponível em https://jornal.usp.br/artigos/a-violencia-contra-as-mulheres-e-a-pouca-producao-de-informacoes/, acesso em 02 jan. 2019.

A propósito, v. Nadine Burke Harris. Como traumas de infância afetam a saúde ao longo da vida. Disponível em https://www.ted.com/talks/nadine_burke_harris_how_childhood_trauma_affects_ health_across_a_lifetime?language=pt-br, acesso em 26 de. jan. 2019, segundo a qual: “Em meados da década de 1990, o CDC [Centro de Controle de Doenças americano] e a Kaiser Permanente [operadora de planos de saúde americana] descobriram um tipo de exposição que aumentava drasticamente o risco de desenvolver sete das dez principais causas de morte nos Estados Unidos. Em altas doses, ela afeta o crescimento do cérebro, o sistema imunológico, o sistema endócrino e até a forma como o nosso DNA é lido e replicado. Pessoas expostas a doses muito altas têm três vezes mais risco de morrer de doenças cardíacas e de câncer de pulmão e têm uma redução de 20 anos em sua expectativa de vida. E ainda hoje, os médicos não são preparados para exames de rotina e tratamento para ela. A exposição a que me refiro não é a um pesticida ou a um químico contido em embalagens, mas a traumas de infância”. Grifou-se.

Depoimento do ator Patrick Stewart, intitulado “The legacy of domestic violence”. The Guardian. 27.11.2009. Disponível em https://www.theguardian.com/society/2009/nov/27/patrick-stewart-domestic-violence, acesso em 20 dez. 2018. Grifou-se. No Brasil, v. a terrível história de Amanda, contada por ela mesma, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=e7GIYaZ0bGs, acesso em 2 jan. 2019.

V. http://www.jacksonkatz.com/, acesso em 20 dez. 2018.

Link do TED: https://www.ted.com/talks/jackson_katz_violence_against_women_it_s_a_men_s_issue

Assim Katz se refere ao assunto: “Eu vou compartilhar com vocês uma perspectiva de mudança de paradigma sobre as questões de violência de gênero — agressão sexual, violência doméstica, abusos no relacionamento, assédio sexual, abuso sexual de crianças. Toda essa gama de problemas, que eu irei chamar daqui para frente de ‘questões de violência de gênero’, elas tem sido encaradas como questões femininas, (…), mas eu tenho um problema com esse ponto de vista. Eu não vejo isso como questões femininas (…). Na verdade, eu vou discutir que essas são questões masculinas, primordial e principalmente. (…). Obviamente, claro, também são problemas femininos, eu entendo isso, mas chamar a violência de gênero de “questão feminina” é parte do problema, por inúmeras razões.

10 Para explicar como isso ocorre, Katz usa a seguinte analogia: Vamos falar por um momento sobre raça. Nos Estados Unidos, quando ouvimos a palavra ‘raça’, muitas pessoas acham que significa ‘afro-americano’, ‘latino’, ‘asiático-americano’, ‘nativo americano’, ‘sul-asiáticos’, ‘descentes das ilhas do Pacífico’ e assim por diante. Muitas pessoas, quando escutam a palavra ‘orientação sexual’, pensam que isso significa ‘gay’, ‘lésbica’, ‘bissexual’. E muitas pessoas, quando escutam a palavra ‘gênero’, pensam que ela significa ‘mulheres’. Em todos estes casos, o grupo dominante não presta atenção. É como se pessoas brancas não tivessem nenhum tipo de identidade racial ou pertencessem a alguma categoria racial ou conceito, como se indivíduos heterossexuais não tivessem orientação sexual, como se os homens não tivessem gênero. Essa é uma das maneiras de os sistemas dominantes se manterem e se reproduzirem, ou seja, é como dizer que o grupo dominante raramente é desafiado a pensar sobre sua dominação, porque essa é uma das características chave do poder e privilégio, a habilidade de não ser examinado, a falta de introspecção, de fato, tornando-se invisível, em grande medida, no discurso sobre questões que são primariamente sobre nós. E é fantástico como isso funciona com a violência doméstica e sexual, como os homens foram apagados de tantas partes do diálogo sobre um tema que diz respeito essencialmente aos homens.

11 Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/22/estilo/1548175107_753307.html?rel=mas, acesso em 23 jan. 2019.

12 Sobre o porquê de tantas vítimas de violência doméstica não irem embora, v. o depoimento de Leslie Morgan ao TED. Disponível na seção de vídeos da Civilistica.com, em https://youtu.be/J9BG9egWR08 acesso em jan. 2019.

13 Jackson Katz, vídeo citado.

14 Sylvia WALBY; Jude TOWERS; Brian FRANCIS. Is Violent Crime Increasing or Decreasing? A New Methodology to Measure Repeat Attacks Making Visible the Significance of Gender and Domestic Relations. The British Journal of Criminology, V. 56, 6, 1 Nov. 2016, p. 1203–1234, disponível em https://doi.org/10.1093/bjc/azv131, na Inglaterra e no País de Gales houve o aumento no número de crimes violentos contra as mulheres, ao mesmo tempo em que houve queda nos crimes violentos contra os homens. O mesmo se dá nos EUA: Cortlynn STARK. Domestic violence rates increase nationally, statewide. 12 02.2018. Disponível em http://www.the-standard.org/news/domestic-violence-rates-increase-nationally-statewide/article_e11db76e-105e-11e8-8efe-cbd3745a8e5b.html, acesso em 20 dec. 2018.

15 Em ótima hora, o Brasil passou a fazer parte do grupo de países que proíbe os castigos físicos: crianças e os adolescentes conquistaram o direito a ser educados sem o uso de castigos físicos com a promulgação da Lei n. 13.010/2014, consequência direta de movimento iniciado pela ONU, em 2002, por meio da Resolução 57/90, na qual a Assembleia Geral solicita a um especialista (o Professor da USP Paulo Sergio Pinheiro) um estudo sobre o tema, finalizado em 2006. Em 2006, apenas 16 países proibiam o uso de castigos físicos no âmbito da família. Hoje já são 57 países, incluída a grande maioria dos países da América do Sul. A Constituição já previra o direito de cada criança de estar a salvo de toda forma violência, crueldade e opressão (art. 227, caput). É preciso que fique evidente que não se bate em pessoa alguma; aliás, como poderiam os adultos receber maior proteção do que as crianças?

16 Uma ideia louvável contra a violência doméstica. Civilistica.com. Rio de Janeiro, a. 2, n. 4, out.-dez./2013. Vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=L0CmGUYvHk4, acesso em 20 mar. 2019.

17 Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/22/estilo/1548175107_753307.html?rel=mas, acesso em 20 jan. 2019. A respeito, cf. a reportagem do jornal O Globo, disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/gilette-ameacada-de-boicote-apos-criticar-masculinidade-toxica-em-comercial-23374396

Enviar para um amigo
Enviar para um amigo
| |   Enviar   | |

Licença Creative Commons Esta publicação está licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.


© 2012 || Civilistica.com || webdesign by pedro gentil